"SER" ESCREVER

"O QUE EU SOU E O QUE EU ESCREVO SÃO UMA COISA SÓ. TODAS AS MINHAS IDÉIAS, TODOS OS MEUS ESFORÇOS, EIS O QUE SOU." (C.G. JUNG)
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domingo, 13 de outubro de 2013

MENTES EM PERIGO - QUALQUER INIMIGO, PODE ESTAR MAIS PRÓXIMO DO QUE PARECE - 27/06/2009

Noel Rosa: Uma mente Perigosa
Qualquer "inimigo" pode estar mais próximo do que parece. Pensemos. Nesta semana, entreguei o trabalho de conclusão do curso Técnico em Museu e, após uma cerveja com os colegas, segui para o ponto de ônibus. Ao embarcar, avistei um lugar disponível, ao lado de uma moça, que lia um livro. Minha curiosidade é habitual em querer saber o que as pessoas lêem. Aproximei-me, pedi licença e, discretamente, dei uma sapeada na capa do livro antes de me sentar e aguardar a saída do coletivo. Percebi que, com olhar de reprovação, a moça fitou-me dos pés a cabeça e manteve-se entretida atrás das páginas que lhe escondiam o rosto. O livro, cuja capa apresentava o dado de "autora com mais de duzentos mil exemplares vendidos", tratava do seguinte tema "como reconhecer e se proteger de pessoas perigosas". Logo, me veio a mente uma questão recorrente na nossa sociedade que é a exacerbação de uma "cultura do medo" que, tem como fundo, questionáveis valores de preservação moral e, mais profundamente, um senso moderno de "desqualificação" do outro. Busca-se com a publicação deste tipo de "literatura", antes de qualquer outra coisa, cobrir uma lacuna criada na formação reflexiva das pessoas, que cada vez mais estão entregando-se a comportamentos e conceitos enlatatos (prontos), alimentando assim o mercado editorial que tem centenas de títulos com este padrão. Este tipo de leitura estimula o individualismo ao "dar" ao leitor, com "receitas de bolo", pseudo-instrumentos para identificar comportamentos que possam tirar a "estabilidade física e emocional" de pessoas "de bem", de "boas intenções", de "boa formação", de "bons princípios" e de "moral". É neste momento que penso em Nietzsche e sua idéia de que a prática da "bondade" das pessoas dotadas de "moral" nada mais é do que a busca do reconhecimento de sua virtude, ou na música fantástica de Noel Rosa, interpretada magistralmente por Paulinho da Viola: 

"O mundo me condena, e ninguém tem pena / falando sempre mal do meu nome / Deixando de saber se eu vou morrer de sede /  Ou se vou morrer de fome /  Mas a filosofia hoje me auxilia A viver indiferente assim /  Nesta prontidão sem fim /  Vou fingindo que sou rico / Pra ninguém zombar de mim / Não me incomodo que você me diga / Que a sociedade é minha inimiga / Pois cantando neste mundo / Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo / Quanto a você da aristocracia /  Que tem dinheiro, mas não compra alegria /  Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente /  Que cultiva hipocrisia".

Sobre a filosofia, esta sim dá instrumentos reflexivos pertinentes para aqueles que, longe de proteger-se dos perigos existentes nos demais seres humanos, consigam refletir e encontrar os perigos que estão em si mesmos, construídos em concepções que resguardam suas "zonas de conforto", pautados em padrões "étnico-ego-antropocêntricos", de moral religiosa, preservação patrimonial, dentre outras tantas coisas. Por trás da "bula" de proteção aos nossos "valores" tão caros de se manter, está a falta de ética profissional de especialistas de ciências humanas, absolutamente vendidos ao mercado (quando não envolvidos no discurso quase religioso do academicismo), além da velha ideologia da perpetuação de soluções reacionárias, que atribuem o antagonismo entre as pessoas, como aquele discurso famoso do "eixo do mal" do lado de "lá", enquanto "Deus está conosco", do lado de "cá". Prefiro, assim, colocar "nós" na minha cabeça, com idéias de amigos como Avari, Itcaina,  Tardochi, Landolpho, Silva, Lima, Gomes ou pensadores como Sartre, Nietzsche, Camus, Sagan, Hesse, os "Andrades", Gullar, Holanda, Veloso, Baptista, Lennon, Dylan e mais mil destes, a ter que "desumanizar" qualquer estranho para me sentir bem e dono do "poder" de me proteger. Pensar as coisas da vida para me indignar ao ler o que alguém conhecido escreveu na rede sobre a Parada Gay, ocorrida na semana passada, usando o título "Sodoma e Gamorra". O problema, creio eu, não está nas "mentes perigosas", mas sim, nas "mentes em perigo".

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

REFLEXÕES PÓS-CONSCIÊNCIA DA BARRIGA: UMA ''DESSAS" INCOMODA MUITA GENTE! (08/02/2008)


Um dia desses, estava eu em casa sem absolutamente nada para fazer, até que uma passagem na frente do espelho me deixou perplexo, quando deparei com a invasão de saliências na região do abdômen (barriga), que havia esquecido. Imediatamente, colocando tênis nos pés, apanhando um par de óculos escuros e a carteira, bati em saída. Tinha que caminhar. Como sempre faço, saí pelas ruas do bairro, evitando uma avenida bastante movimentada, com um enorme canteiro, ao lado de casa, pois essa está disposta em linha reta e, ao meu ver, nada faz para tirar esforço algum de corpos “acomodados”. E no caminho, dá-lhe subida, dá-lhe descida e lá estou eu a caminhar. Até que num gesto de absoluta imbecilidade, decidi parar de frente para uma balança, numa farmácia, movendo toda a minha massa suada para cima do aparelho. Ah se arrependimento matasse! Eis que algo diferente interrompe esta lamúria: o farmacêutico me cumprimenta, perguntando sobre a família, etc. Respondi que estava tudo bem, falei sobre o tempo que fechava para a chuva cair, agradeci e fui embora. Logo pensei “não conheço este cara”. E assim, estava iniciado um tortuoso exercício de lembrança para buscar na mente qual a situação em que conheci este homem. Movimentava neste momento, então, corpo e mente. Mas não tive tempo de se que começar: enquanto subia uma pequena ladeira, um rapaz com ar “alegre” e uma moça de hiperlordose incrivelmente “hiper”, conversavam e, quando me viu, ele interrompeu a fala da moça e me cumprimentou, sorrindo. Pensei “mas o que será que está acontecendo, hoje? Estarei eu sendo confundido com algum ator que interpreta um vilão na novela das sete? Terei eu ficado famoso pela elaboração de alguma tese o sobre o Paradigma Entre a Ação Social Religiosa e a Laicização do Trabalho Social no Brasil, após a década de Noventa e As Novas Perspectivas para a Auto-sustentabilidade com Base no Modelo Cultural de Educação Popular (títulos acadêmico-orgísticos me dão asco!), ou publicado algum livro que tenha vendido mais que o Paulo Coelho? Ou será que fui parar nas manchetes dos programas esportivos por afirmar que certo movimento democrático no futebol brasileiro, em meados dos anos oitenta, não passava de uma jogada de marketing para atrair investidores a o clube? Pensando bem, deve ter sido pela entrevista ao um programa de uma rádio de jornalismo, analisando as "permanências (ou não - como diria Caetano Veloso) das idéias tropicalistas na gestão globalizada do ministro da cultura, solidário a uma C&A de teatro estrangeira e rica, com uso de leis de incentivo brasileiras!?" Ou até, por que não, quem sabe, tenha participado de um programa de auditório de perguntas e respostas da TV, tendo perdido o prêmio na última rodada”... Depois disso, ainda fui cumprimentado por uma senhora idosa que passeava com um basset (também idoso), fui alertado por uma buzinada de carro e ouvi um “opa!” de passagem, além de receber um sinal de “jóia”, de um pedreiro que trabalhas nas obras de um edifício que tem uma entrada de imensas colunas romanas e arcos clássicos, (será que estamos voltando ao período dos imperadores?). Delírios à parte, o fato é que, ao chegar em casa, pingando de suor dos pés à cabeça, estava tão ansioso com as possibilidades que se passaram quanto às coisas que pensei no decorrer da caminhada que, não tive outra alternativa que não fosse comer um lanche maior do que minha boca e beber um balde de café. Quanto à luta contra a barriga, deixo para a fé. Está escrito na bíblia que um “grão de mostarda, move montanhas”. Assim, enquanto que a mostarda que conheço já deixou de ser grão e é um molho para se comer, espero eu, encontrar o “grão da fé”, no incômodo da simplicidade cotidiana, “liquidificada” numa cabeça que não para.

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